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Como nasce uma história (fragmento) Quando cheguei ao edifíc 28368

Como nasce uma história

(fragmento)

            Quando cheguei ao edifício, tomei o elevador que serve do primeiro ao décimo quarto andar. Era pelo menos o que dizia a tabuleta no alto da porta.

           

            - Sétimo - pedi.

            A porta se fechou e começamos a subir. Minha atenção se fixou num aviso que dizia:

            É expressamente proibido os funcionários, no ato da subida, utilizarem os elevadores para descerem.

            Desde o meu tempo de ginásio sei que se trata de problema complicado, este do infinito pessoal. Prevaleciam então duas regras mestras que deveriam ser rigorosamente obedecidas. Uma afirmava que o sujeito, sendo o mesmo, impedia que o verbo se flexionasse. Da outra infelizmente já não me lembrava.

            Mas não foi o emprego pouco castiço do infinito pessoal que me intrigou no tal aviso: foi estar ele concebido de maneira chocante aos delicados ouvidos de um escritor que se preza.

            Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro, entenderia o que se pretende dizer neste aviso. Pois um tijolo de burrice me baixou na compreensão, fazendo com que eu ficasse revirando a frase na cabeça: descerem, no ato da subida? Que quer dizer isto? E buscava uma forma simples e correta de formular a proibição:

            É proibido subir para depois descer.

            É proibido subir no elevador com intenção de descer.

            É proibido ficar no elevador com intenção de descer, quando ele estiver subindo.

            Se quiser descer, não tome o elevador que esteja subindo.

            Mais simples ainda:

            Se quiser descer, só tome o elevador que estiver descendo.

            De tanta simplicidade, atingi a síntese perfeita do que Nelson Rodrigues chamava de óbvio ululante, ou seja, a enunciação de algo que não quer dizer absolutamente nada:

            Se quiser descer, não suba.

Fernando Sabino. A volta por cima. Rio de Janeiro: Record, 1995, p. 137-140 (com adaptações).

Acerca do gênero textual e das estruturas lingüísticas do texto acima, julgue o item a seguir.

O gênero textual apresentado permite o emprego da linguagem coloquial, como ocorre, por exemplo, em "Qualquer um, não sendo irremediavelmente burro" e "um tijolo de burrice".

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